AS VIOLÊNCIAS NAS ESTRATÉGIAS DE VIRILIZAÇÃO E BANALIZAÇÃO DO ASSÉDIO MORAL NO EXÉRCITO BRASILEIRO
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Resumo
O assédio moral em instituições militares constitui fenômeno estruturado na articulação entre masculinidade militarizada, hierarquia e disciplina, configurando formas naturalizadas de violência no cotidiano castrense. Deste modo, o presente ensaio teórico discute as singularidades das estratégias de virilização e banalização da violência no Exército Brasileiro, tomando o assédio moral como expressão privilegiada dessas dinâmicas. Parte-se do problema: como as estratégias de virilização e banalização da violência no Exército Brasileiro contribuem para a legitimação de práticas de assédio moral e para o adoecimento psíquico de militares? O objetivo deste artigo é problematizar as singularidades da virilização e da banalização da violência, travestidas de assédio moral nas Forças Armadas brasileiras, apresentando reflexões e críticas que integram, principalmente, a realidade psicossocial da organização do trabalho e suas consequências na saúde mental dos militares. Metodologicamente, trata-se de um estudo de natureza qualitativa, ancorado em método teórico-dedutivo, com fins exploratórios e descritivos. Foram mobilizados procedimentos de revisão bibliográfica e documental, envolvendo, como dados primários, normativas institucionais, notas técnicas e legislações sobre assédio e saúde do trabalhador, e, como dados secundários, produções científicas nacionais e internacionais sobre masculinidades militarizadas, assédio moral e sofrimento psíquico em instituições armadas. A análise dos materiais foi conduzida por meio de hermenêutica sociológica de inspiração psicossocial, buscando articular categorias de gênero, poder e trabalho. Os resultados indicam que a construção de uma masculinidade hegemônica militarizada, associada à virilidade, à agressividade e à obediência incondicional, favorece a transformação do assédio moral em ferramenta de gestão e formação, frequentemente recoberta pelo discurso de preparo para o combate. Evidencia-se que os pilares de hierarquia e disciplina funcionam como dispositivos que silenciam denúncias, obstaculizam reconhecimento de violência, convertem o assédio em ferramenta de formação e gestão, e contribuem para o estigma relacionado à busca de cuidado em saúde mental e para o agravamento de quadros de sofrimento psíquico. Além disso, os rituais e processos de adestramento produzem perfis de liderança que replicam condutas assediosas, enquanto as vítimas apresentam sofrimento psíquico significativo, manifestado em ansiedade, depressão, uso abusivo de substâncias e prejuízos familiares. Conclui-se que o assédio moral constitui violência institucional estruturante, sendo indispensável reconhecê-lo como tal para orientar intervenções, políticas de prevenção e práticas de cuidado voltadas à saúde mental no âmbito das Forças Armadas.
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